A viralização em mobiles e a pornografia de vingança: o caso Fran

Revenge Porn

Aproveitando o gancho da nossa última postagem, onde fiz uma análise do aplicativo WhatsApp, falarei hoje sobre um tema um tanto quanto polêmico, que é a pornografia de vingança, ou como o termo ficou conhecido ao redor do mundo, “revenge porn“. O momento é propício para a discussão, devido a um viral repassado através das tecnologias mobile, em que uma jovem identificada como Fran (leia sobre o caso aqui) foi vítima da divulgação de vídeos íntimos dela com o ex-namorado, reconhecido como Sérgio. Em um deles, a garota faz um sinal de “ok” com uma das mãos, o que gerou diversas manifestações nas Redes Sociais de pessoas repetindo o gesto. Essa é apenas mais uma das muitas pessoas que foram vítimas do que se popularizou como “caiu na net”.

Vídeo de Fran circulou por aplicativos mobile de todo o país

Vídeo de Fran circulou via tecnologia mobile

Bom, em primeiro lugar, gostaria de tratar da questão ética, a moralidade, frisando, claro, que trata-se de uma análise, portanto, sem caráter julgador ou opinativo. Afinal, não há como afirmar que Sérgio divulgou os vídeos na intenção de denegrir a imagem da ex-namorada (existem ,sim, casos de furto de imagens pessoais, como no caso da atriz Carolina Dieckmann), mas existem, comprovadamente, casos semelhantes e propositais na internet.

Retornando às raízes dos estudos freudianos, podemos afirmar que nós, seres humanos, temos dois instintos naturais: o sexual e o agressivo. Como animais racionais, os seres humanos tentam inibir esses impulsos para conviver em sociedade. Mas esses estímulos são naturais do nosso organismo e incontroláveis. As reações produzidas por eles é que podem ser reprimidas através do pensamento racional. Este é o requisito para viver em harmonia e de maneira organizada. Para isso, criamos leis (poder jurídico), mas também conceitos de moral e ética que nos regulam as ações e nos permitem viver em um ambiente de cooperação, correlação e reciprocidade.

No caso em questão, tratamos dos instintos sexuais, para os quais a sociedade (baseada em princípios e eventos culturais, religiosos, psicosociais, éticos, econômicos, entre outros) convencionou uma regra: se entregar aos estímulos é algo ruim, imoral e até motivo de piada. Ora, na intimidade de um indivíduo ou de um casal, na peculiaridade de cada ser, todos têm seus estímulos, sejam eles incomuns ou nem tanto. Portanto, esse julgamento coletivo pelo qual passa a jovem Francyelle, é fruto de uma análise coletiva e de processos experimentais pelos quais todos nós passamos, tendo em vista na intimidade do ser possuímos momentos de libertação, quando exprimimos vontades e desejos que jamais expressaríamos publicamente.

Assim, entramos mais uma vez na questão do escrúpulo, do caráter, do padrão e da regra. No momento da soltura do “eu”, existe um ponto em que a confiança no outro ser é tamanha a ponto de ignorar as convenções da sociedade diante de uma presença adicional . E é nessa etapa que acontecem os equívocos, pois o ser humanos tem a natureza rancorosa e, se em um momento consegue passar segurança e conforto para a libertação, no momento seguinte, por circunstâncias distintas, pode alterar radicalmente a própria conduta. E libera-se o instinto agressivo, vingativo, capaz de desmoralizar a imagem alheia perante a família, os círculos de amigos e conhecidos, diante de todo o país, muitas vezes sem refletir ou imaginar as consequências para ambos. Imagino que seja o que aconteça nos casos de pornografia de vingança.

Viralização: usuários imitam o gesto em Redes Sociais

Viralização: usuários imitam o gesto em Redes Sociais

Não houveram relatos de exposição em plataformas de web, como o Facebook e o Instagram (embora as imagens feitas pelos usuários tenham sido divulgadas principalmente por essas redes). Ou seja, trata-se de um fenômeno criado e compartilhado em plataformas móveis, os smartphones. E, invariavelmente, surgem debates sobre até onde vai a liberdade de divulgação. O WhatsApp e outros aplicativos mobile pregam a total liberdade de troca de arquivos entre os usuários, mas isso facilita a superexposição de imagem e a pornografia. Tendo isso em vista, o governo da Califórnia já assinou uma lei que proíbe a transferência de arquivos que violem a privacidade do usuário sem a autorização do mesmo.

Em questões de legalidade, o ato de divulgação das imagens aplica-se à lei Maria da Penha, podendo findar em até um ano de cadeia ao infrator. Mas isso traz à tona uma questão importante, pela qual passou também a internet em seus primórdios, que é a impossibilidade de controle em irregularidades como essa. Aos poucos, a web se adaptou e, embora grande parte de seu conteúdo ainda seja pornográfico, existem meios para controlá-la e direcioná-la por opção do próprio usuário. Foi possível até mesmo extinguir ações ilegais (como a pedofilia e a necrofilia). A questão é: o governo deve interferir ou em questões de transferência em tecnologias mobile?

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3 pensamentos sobre “A viralização em mobiles e a pornografia de vingança: o caso Fran

  1. Ótima análise Lucas. Em minha opinião, o problema não está na liberdade de troca de informações entre os dispositivos, mas na falta deles de filtros inteligentes para reconhecer imagens deste tipo, com conteúdo sexual.

  2. “Assim, entramos mais uma vez na questão do escrúpulo, do caráter, do padrão e da regra. No momento da soltura do “eu”, existe um ponto em que a confiança no outro ser é tamanha a ponto de ignorar as convenções da sociedade diante de uma presença adicional . E é nessa etapa que acontecem os equívocos, pois o ser humanos tem a natureza rancorosa e, se em um momento consegue passar segurança e conforto para a libertação, no momento seguinte, por circunstâncias distintas, pode alterar radicalmente a própria conduta. E libera-se o instinto agressivo, vingativo, capaz de desmoralizar a imagem alheia perante a família, os círculos de amigos e conhecidos, diante de todo o país, muitas vezes sem refletir ou imaginar as consequências para ambos. Imagino que seja o que aconteça nos casos de pornografia de vingança.”

    Eu gostaria de entender melhor a sua ideia, pois ficou pouco claro. Você realmente acredita que tirar fotos íntimas e gravar vídeos seja um “equívoco”? Porque é o que dá a entender quando você diz “No momento da soltura do “eu”, existe um ponto em que a confiança no outro ser é tamanha a ponto de ignorar as convenções da sociedade diante de uma presença adicional . E é nessa etapa que acontecem os equívocos”.
    Tirar fotos íntimas, gravar videos são uma expressão da fantasia sexual, e é muito complicado ter julgamentos de valor neste sentido, de ser certo ou errado. Primeiro porque a natureza deste material erótico não se é contra a lei (como as fotos de pedofilia, por exemplo). Contra a lei é a forma como este material foi utilizado, a partir do momento em que o ex-namorado joga as imagens na web para causar constrangimento à garota, e isso deve ficar MUITO CLARO.
    A forma como você justifica o suposto “equívoco” de gravar videos ou imagens é que está muito equivocada, pois você embasa seu argumento em uma interpretação bastante distorcida dos estudos de Freud. Você fala sobre a natureza rancorosa e vingativa do ser humano, de que em um determinado momento passa segurança e no outro, isso pode mudar. Isso não é natureza humana, e sim CARÁTER, PERSONALIDADE. Todos nós temos impulsos, inclusive os agressivos (você usa a palavra “instinto”, o que não é adequado. Mesmo na língua alemã, Freud fazia questão de não usar a palavra “instinto” no sentido que você utilizou, para falar da natureza humana, pois nossos impulsos são mediados pela linguagem, diferentemente dos animais, que de fato possuem instinto. São coisas diferentes, mais complexas do que essa explicação simples que eu dei mas não cabe falar sobre isso aqui, e é importante frisar isso). Entretanto, a forma que lidamos com nossos impulsos é que mostra a nossa personalidade.

    Se fosse assim do jeito como você falou, um indivíduo qualquer com fome (uma necessidade básica tanto quanto o sexo) e sem dinheiro, por exemplo, entraria em uma loja e pegaria aquilo que quisesse comer e sairia sem pagar. Isso acontece? Todas as pessoas que têm fome e não tem dinheiro, entram em estabelecimentos e roubam comida por ter “instintos” incontroláveis? Acredito que não.

    Você explica o rancor da mesma forma. Que é da natureza humana os homens serem rancorosos, e aí, é só dar oportunidade para que essa natureza se manifeste. Não é bem por aí, não é? Porque se for assim, só o fato de se fazer sexo com outra pessoa já abriria possibilidade de um material erótico cair na internet de forma não autorizada. Afinal, quantos pessoas não tiram fotos e gravam videos sem a permissão do outro e jogam na internet?

    Eu friso que é uma questão de caráter, e não de evitar dar oportunidade para o outro ser vingativo. É a mesma coisa que dizer que a roupa curta faz com que a mulher seja estuprada, ou que a criança provocou o desejo do pedófilo quando interage com ele. De forma velada, você culpabiliza a vítima por suas ações, por ter feito sexo e se deixado fotogravar e gravar. Mas quantas são as pessoas que se deixam gravar e fotografar e NÃO TEM suas fotos divulgadas na internet? Provavelmente muitas, e sobre isso aparentemente você não pensou. O que diferencia, então, uma pessoa que divulga este tipo de material de outra que não faz o mesmo?
    RESPOSTA: A primeira é uma fdp, criminosa que deve ser indiciada, e a outra não. Simples assim.

    Você levanta uma questão no final do seu texto, se o governo deve interferir nas tecnologias de transferência de arquivos mobile. Acredito que se houvesse, de fato, uma punição daqueles que divulgam imagens pornográficas na internet, sem autorização, essa pergunta nem precisaria ser feita.

    • Olá, Nathaly, tudo bem?

      Antes de qualquer resposta, antecipo meu agradecimento pela brilhante participação no blog. A sua opinião realmente acrescentou muito.

      O equívoco a que me refiro não é relativo ao fato de tirar as fotos (algo que considero extremamente normal), mas no fato de a pessoa confiar algo pessoal sob a possibilidade de ser traída posteriormente, entende? Não há aqui julgamento algum, e lhe peço desculpas caso tenha transparecido isso.

      Bom, a sua postagem me abriu bastante a mente. Admito que meus estudos acerca da psicologia são bastante superficiais, baseados apenas em uma matéria que tive na faculdade, de onde extraí essas conclusões que você pôde ler. Realmente, o equívoco pode não existir, mas sim a maldade (sim, não há outra palavra) de especular ferir um semelhante de uma maneira irremediável (expondo-o socialmente).

      Mais uma vez, muito obrigado pela colaboração e convido-a para continuar comentando de maneira didática e reflexiva aqui no blog.

      Um grande abraço!

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