Copa do Morro 2010: a história se repete?

Menino pobre

Bom, hoje o dia está sendo extremamente corrido para mim, de modo que postarei um texto muito congratulado que fiz na época da faculdade, em uma das matérias. Ela me rendeu elogios por parte de um dos meus mentores e ídolos, o professor Eustáquio Trindade e, portanto, é uma das minhas favoritas. O tema é a Copa do Mundo de 2010, há anos atrás, mas achei interessante revivê-la para demonstrar que a situação não mudou.

Autor: Lucas Amaral

Copa do Morro

No ano que vem, na África do Sul, o Brasil tentará conquistar o título mundial no futebol pela sexta vez na história. O nosso time, o mais tradicional no esporte bretão, tem muito que se orgulhar. Mas não há o que comemorar no momento. O hexacampeão da vez, antes mesmo da seleção brasileira, é o Morro do Juramento. Seis foi o número de corpos encontrados na última operação de resgate do corpo de bombeiros. Dois deles, em vida, menores de idade. Como Pelé, na Copa de 58, quando o Brasil ganhou o primeiro título de campeão do Mundo.

Pelé, aliás, tem algo em comum com estes meninos, além da pele negra: a humildade enraizada. Pelé disse uma vez que adora fogos de artifício. Adelson, pai de um dos meninos que foram encontrados mortos, escuta fogos todos os dias. Advêm de tiroteios, constantes no Morro do Juramento e, naturalmente, ele os detesta. Uma vez, Pelé distribuiu balas às crianças que foram recepcioná-lo no Aeroporto de Congonhas. Doze foram as balas com que Adílson foi almejado no rosto antes de ser colocado em um saco e enterrado.

Mas aqui, tá tudo bem. No País da bola, o campeonato de homicídios está cada dia mais acirrado. Enquanto a bola rola, o corpo cai. E a gente bota um par de óculos escuros e solta fogos pelo título. Quem assiste de binóculos percebe que, não muito longe, está a imoralidade. Mas o fato é que todo mundo fecha os olhos e vira o rosto pra quem pouco representa à sociedade. Refiro-me à nossa “politicada”. Ah, se os homens no comando não fossem cegos por opção! Comando, que falta na Capital, sobra no morro: lá, todo mundo quer comandar.

Três facções disputam a região do Morro do Juramento. O nome disso, para mim, é guerra civil. Como o apartheid, há alguns anos abolido na África do Sul, sede da Copa no ano que vem. Só que ninguém quer assustar a população com uma denominação tão chocante. É como se o morro não fizesse parte da cidade. Eles que disputem o poder por lá e a gente fica na boa e, de novo, botamos os óculos escuros, vamos à praia e ouvimos os fogos do Maracanã, por que os fogos do Juramento não são para comemorar.

Eu vou além e teorizo. Acho que o olhar desatento e esguio com relação às alas pobres tem a ver com terras distantes. Explicando, se a gente cobre a retina por aqui, como irão então os demais Estados democráticos enxergar a desproporção existente no Brasil? Querem que olhem para nós e enxerguem a inverdade de que o País não sofre com a violência, a carência e, como dito antes, a calamidade civil.

De todo modo, vez ou outra, alguém sai da favela e obtém sucesso. Na maioria, jogadores de futebol, como Édson Arantes, o Pelé. É o caso de um famigerado atleta que, após conquistar fiéis adoradores pela Europa e demais continentes, voltou a seu retiro pessoal, ao repouso natural: a Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Além da incrível façanha de não morrer, Adriano, ex-atacante do milionário clube italiano Inter de Milão, ainda conseguiu juntar muita bufunfa. E vai, no ano que vem ,disputar a Copa na África do Sul.

Enquanto o pai de Adriano comemora, o de Adílson chora. Adriano, o imperador, como ficou conhecido nos tablóides milaneses, conseguiu sair da favela e obter sucesso, por que lá dentro, quem tem sucesso é o dono do morro, o imperador do tráfico. Adílson, que não conseguiu sair, doa a quem doer, foi pro saco. Literalmente.

Lá no morro, é diferente. Além de torcerem pro Brasil na Copa, os moradores torcem, antes disso, para sobreviverem até o ano que vem. E via reza, oração, súplica ou macumba, jogar pras mãos do santo. Adriano sempre sonhou ser Pelé. No Morro do Juramento, onde milhares de “Pelés” sonham em se tornar “Adrianos”, os fogos não param. Nem durante a Copa do Mundo, quando os estádios de futebol TV’s de todo o mundo, terão, no mínimo, menos seis olhares, estes sim abertos e atentos, de sonhadores mirins.

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